LUZ E COR
O mar às vezes parece um véu diáfono, outras pó verde. Às
vezes é de um azul transparente, outras cobalto. Ou não tem consistência e é
céu, ou é confusão e cólera. De manhã desnavece-se, de tarde sonha. E há dias
de nevoeiro em que ele é extraordinário, quando a névoa espessa pouco e pouco
se adelgaça, e surge atrás da última cortina vaporosa, todo verde, dum verde
que apetece respirar. Diferentes verdes bóiam na água, esbranquiçados, transparentes,
escuros quase negros, misturados com restos de onda que se desfaz e redemoinha
até ao longe. E ainda outros azulados, com a cor das podridões. Tudo isto
graduado e dependendo do céu, da hora e das marés. Há momentos em que me julgo
metido dentro duma esmeralda, e, depois, numa jóia esplêndida, de um azul único
que se incendeia. Mas a luz morre, e a luz agonizando exala-se como um perfume.
É uma grande flor que desfalece. O doirado não é simplesmente doirado, nem o
verde simplesmente verde: possuem uma alma delicada e exática.
In “Os Pescadores” de Raúl Brandão