quarta-feira, 9 de março de 2016

Cão(vencido)


Óleo sobre Tela 40x80cm
"Cão(vencido)"
Rui Pascoal - 2016

CÃO

Cão passageiro, cão estrito,
cão rasteiro cor de luva amarela,
apara-lápis, fraldiqueiro,
cão liquefeito, cão estafado,
cão de gravata pendente,
cão de orelhas engomadas,
de remexido rabo ausente,
cão ululante, cão coruscante,
cão magro, tétrico, maldito,
a desfazer-se num ganido,
a refazer-se num latido,
cão disparado: cão aqui,
cão além, e sempre cão.
Cão marrado, preso a um fio de cheiro,
cão a esburgar o osso
essencial do dia a dia,
cão estouvado de alegria,
cão formal da poesia,
cão-soneto de ão-ão bem martelado,
cão moído de pancada
e condoído do dono,
cão: esfera do sono,
cão de pura invenção, cão pré-fabricado,
cão-espelho, cão-cinzeiro, cão-botija,
cão de olhos que afligem,
cão-problema...

Sai depressa, ó cão, deste poema!

Alexandre O'Neill


terça-feira, 1 de março de 2016

O Poeta e o pintor


Óleo sobre Tela 40x60cm
"O Poeta e o pintor"
Rui Pascoal - 2016

"O poeta é um fingidor..."
E o pintor, sofre com a cor?

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Postal de Boas Festas


Óleo sobre Tela 60x80cm
"Brincar ao Gato e ao Rato"
Rui Pascoal - 2015

Sete vidas tem o gato
Não é justo, disse o rato…
Piu, piu, piu
E nunca mais se (ou)viu.



Com votos de Boas Festas para todos vós.


domingo, 22 de novembro de 2015

Pedro Barroso




Estados Unidos da Europa
Poema de Pedro Barroso
– in “Das Mulheres e do Mundo” Ed Mirante, 99

Quando a Europa existir
E o velho escudo das quinas
for apenas uma saudade
nesse dia hei-de subir
ao castelo de Penedono
e gritar uma saúde
ao tempo de nunca vir
mais ao tempo de lembrar
hei-ir ao Restelo contar
histórias de marinheiros
falar aos jovens de Alcácer
de Gonçalo Mendes da Maia
Jerumenha, Évoramonte
Aljubarrota, Atoleiros
Hei-de subir aos penhascos,
às torres de Marialva,
à menagem de S Jorge,
de Belver e Guimarães
e recordar outra vida,
outro país que já houve
de gente dada à bravura
que ao Sul criou espaços
na conquista da planura
gente com alma e com espada
e artes de marear
e hei-de ficar cansado
mas hei-de ficar saciado
nesse espaço fabuloso
recriado do passado
em sonho particular
esquecido da tal verdade
corridos trinta ou cem anos
Estados Unidos da Europa
país novo e florescente
tal me orgulha e me transcende...
- Ah! Mas nunca me arrepende
ter feito Alcácer Quibir
ou batalha do Salado
com o estandarte entre dentes!...
Nesse dia, em mirandum
cantarei ao desafio
navegarei pelo Douro
até ao fim desse rio
onde brindarei com Porto
e perdido na montanha
beberei águas de fonte
da pátria de Portugal
e serei europeu, sim
serei até, mundial
mas primeiro,
vai uma alheira
do fumeiro de Mirandela;
moreia frita de Sagres;
cozido ilhéu na panela;
e as amêijoas de S Jorge;
as bananas da Madeira;
os verdes do velho Minho;
os cavalos do Ribatejo
mais as camisas de linho;
e o cante do Alentejo;
e este mar frente a Lisboa,
onde a ralé marinheira
canta o fado cacilheiro
e atraca corpo e navio
em romances de inventar
Levem a fama, a bandeira
levem o nome e o preito
quem vai mandar no meu peito
vai ser o nome esquecido
de um velho país ao canto
desse novo Espaço Unido
onde tudo, campo e praia
ao falar-nos do passado
vai falar-nos dum Futuro
outra vez por restaurar
Portugal era seu nome.
- Crianças desse reinado
aprendam a soletrar...
Existiu na sua Língua
nos seus artistas e heróis
nos pensadores e no mar.
Já foi um país inteiro
de palavras e aventura
e se então, nesse lameiro
de Babel no linguajar,
nos obrigarem ao sonho
embalado na censura,
empacotado e vulgar,
que me sobre essa loucura
de ir para a rua gritar,
nesta língua de Camões,
pelo tempo que há-de vir
no país que não morreu
no país que há-de voltar !

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Aniversário


Óleo sobre tela 80x60cm
"Aniversário"
Rui Pascoal - 2015


Aniversário

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus! o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho... )
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos ...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! ...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...


Álvaro de Campos

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Nós...


Óleo sobre Tela 30x60 cm
"Nós..."
Rui Pascoal - 2015


A mão que esconde mais do que oferece,
os olhos de presa dominando o caçador.
E os teus lábios que murmuram a prece
de quem só reza no instante do amor.

E se falasse dos teus olhos, dos teus braços
desse corpo em que me perco e te ganho,
não mais acabaria o que tem de acabar;

uma respiração de suspiros e de abraços
neste canto em que és tudo o que eu tenho,
nesta viagem em que não tem fundo o mar.


Nuno Júdice

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Mar Sonoro




MAR SONORO

Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim.
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho.
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.


SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN
In Dia do mar, 1947 



P.S. (Qualquer dia volto... ou não).