Coisas há, que nunca mudam. Esta constipação, por exemplo, insiste em acompanhar-me e não adianta trocar de café...
Depois da bica pego no livro e entre a leitura pausada e umas assoadelas apercebo-me, pelo canto do olho, que na mesa ao lado está uma senhora, parecia ser uma senhora, sorrateira, a rasgar sem grande habilidade uma folha do pasquim da casa. Indignado com a sua atitude passei a olhá-la de modo diferente, i.e., agora com a curiosidade de um miúdo. Assim que se sentiu “descoberta” abeirou-se da minha mesa para se justificar…
Eu não lhe perguntei nada, disse-lhe eu com o nariz fanhoso e agora de olhos muito abertos. Como insistia em desempenhar o papel da vítima assumi o de carrasco, sugeri-lhe que além do boletim do concurso levasse também as más notícias e já agora, pelo mesmo preço, a minha constipação.
Ele há cada ranhoso…
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Tenho uma grande constipação
Tenho uma grande constipação,
E toda a gente sabe como as grandes constipações
Alteram todo o sistema do universo,
Zangam-nos contra a vida,
E fazem espirrar até à metafísica.
Tenho o dia perdido cheio de me assoar.
Dói-me a cabeça indistintamente.
Triste condição para um poeta menor!
Hoje sou verdadeiramente um poeta menor.
O que fui outrora foi um desejo; partiu-se.
Adeus para sempre, rainha das fadas!
As tuas asas eram de sol, e eu cá vou andando.
Não estarei bem se não me deitar na cama.
Nunca estive bem senão deitando-me no universo.
Excusez un peu... Que grande constipação física!
Preciso de verdade e da aspirina.
(Álvaro de Campos, in "Poemas")