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quarta-feira, 4 de maio de 2016

Brisa


Óleo sobre Tela 80x60cm
"Brisa"
Rui Pascoal - 2016

Meu amor é marinheiro
E mora no alto mar
Seus braços são como o vento
Ninguém os pode amarrar

Quando chega à minha beira
Todo o meu sangue é um rio
Onde o meu amor aporta
Meu coração um navio

Meu amor disse que eu tinha
Na boca um gosto a saudade
E uns cabelos onde nascem
Os ventos e a liberdade

Meu amor é marinheiro
Quando chega à minha beira
Acende um cravo na boca
E canta desta maneira

Eu vivo lá longe, longe
Onde moram os navios
Mas um dia hei-de voltar
Às águas dos nossos rios

Hei-de passar nas cidades
Como o vento nas areias
E abrir todas as janelas
E abrir todas as cadeias

Meu amor é marinheiro
E mora no alto mar
Coração que nasceu livre
Não se pode acorrentar

(Manuel Alegre)

quarta-feira, 9 de março de 2016

Cão(vencido)


Óleo sobre Tela 40x80cm
"Cão(vencido)"
Rui Pascoal - 2016

CÃO

Cão passageiro, cão estrito,
cão rasteiro cor de luva amarela,
apara-lápis, fraldiqueiro,
cão liquefeito, cão estafado,
cão de gravata pendente,
cão de orelhas engomadas,
de remexido rabo ausente,
cão ululante, cão coruscante,
cão magro, tétrico, maldito,
a desfazer-se num ganido,
a refazer-se num latido,
cão disparado: cão aqui,
cão além, e sempre cão.
Cão marrado, preso a um fio de cheiro,
cão a esburgar o osso
essencial do dia a dia,
cão estouvado de alegria,
cão formal da poesia,
cão-soneto de ão-ão bem martelado,
cão moído de pancada
e condoído do dono,
cão: esfera do sono,
cão de pura invenção, cão pré-fabricado,
cão-espelho, cão-cinzeiro, cão-botija,
cão de olhos que afligem,
cão-problema...

Sai depressa, ó cão, deste poema!

Alexandre O'Neill


segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Aniversário


Óleo sobre tela 80x60cm
"Aniversário"
Rui Pascoal - 2015


Aniversário

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus! o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho... )
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos ...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! ...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...


Álvaro de Campos

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Nós...


Óleo sobre Tela 30x60 cm
"Nós..."
Rui Pascoal - 2015


A mão que esconde mais do que oferece,
os olhos de presa dominando o caçador.
E os teus lábios que murmuram a prece
de quem só reza no instante do amor.

E se falasse dos teus olhos, dos teus braços
desse corpo em que me perco e te ganho,
não mais acabaria o que tem de acabar;

uma respiração de suspiros e de abraços
neste canto em que és tudo o que eu tenho,
nesta viagem em que não tem fundo o mar.


Nuno Júdice

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Mar Sonoro




MAR SONORO

Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim.
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho.
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.


SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN
In Dia do mar, 1947 



P.S. (Qualquer dia volto... ou não).




domingo, 19 de julho de 2015

Bom dia!



Flor de acaso ou ave deslumbrante,
Palavra tremendo nas redes da poesia,
O teu nome, como o destino, chega,
O teu nome, meu amor, o teu nome nascendo
De todas as cores do dia!

(Alexandre O'Neill)


quinta-feira, 14 de maio de 2015

Achas que sabes cantar?


Ainda não perdi o pio...


Não canto porque sonho.
Canto porque és real.
Canto o teu olhar maduro,
o teu sorriso puro,
a tua graça animal.
...

(Eugénio de Andrade)

....

E tu, achas que sabes cantar?

:)


domingo, 3 de maio de 2015

Dia da Mãe


"Pequeno Poema"

Quando eu nasci, 
ficou tudo como estava.

Nem homens cortaram veias, 
nem o Sol escureceu, 
nem houve estrelas a mais... 
Somente, 
esquecida das dores, 
a minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci, 
não houve nada de novo 
senão eu.

As nuvens não se espantaram, 
não enlouqueceu ninguém...

Pra que o dia fosse enorme, 
bastava 
toda a ternura que olhava 
nos olhos de minha Mãe...

(Sebastião da Gama, in 'Antologia Poética')

.......

Hoje, com 90 anos, a minha mãe ainda mantém este bonito sorriso. 

terça-feira, 28 de abril de 2015

O sorriso, precisa de aviso?




O Sorriso

Creio que foi o sorriso,
sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.


(Eugénio de Andrade )



segunda-feira, 23 de março de 2015

Verão


Óleo sobre Tela - 30x40cm
"Verão"
Rui Pascoal - 2015


"...Olha o Verão que já não tarda
disse-me à tarde o teu peito
por mais frutos que ele traga
não há nenhum tão perfeito..."


(David Mourão Ferreira)


quinta-feira, 19 de março de 2015

Dia do Pai


Hoje e sempre, grato eternamente.

........


O habitante
(ao meu pai)


Se partiste, não sei.
Porque estás,
tanto quanto sempre estiveste.

Essa tua,
tão nossa, presença
enche de sombra a casa
como se criasse,
dentro de nós,
uma outra casa.

No silêncio distraído
de uma varanda
que foi o teu único castelo,
ecoam ainda os teus passos
feitos não para caminhar
mas para acariciar o chão.

Nessa varanda te sentas
nesse tão delicado modo de morrer
como se nos estivesse ensinando
um outro modo de viver.

Se o passo é tão celeste
a viagem não conta
senão pelo poema que nos veste.

Os lugares que buscaste
não têm geografia.

São vozes, são fontes,
rios sem vontade de mar,
tempo que escapa da eternidade.

Moras dentro,
sem deus nem adeus.


Mia Couto, in vagas e lumes.



domingo, 15 de março de 2015

A Vida é um Sopro


Óleo sobre Tela 30x40cm
"A Vida é um Sopro"
Rui Pascoal - 2015

A Vida

A vida é o dia de hoje,
A vida é o ai que mal soa,
A vida é sombra que foge,
A vida é nuvem que voa;
A vida é sonho tão leve
Que se desfaz como a neve
E como o fumo se esvai;
A vida dura num momento,
Mais leve que o pensamento,
A vida leva-a o vento,
A vida é folha que cai!

A vida é flor na corrente,
A vida é sopro suave, 
A vida é estrela cadente,
Voa mais leve que a ave:
Nuvem que o vento nos ares,
Onda que o vento nos mares, 
Uma após outra lançou,
A vida - pena caída
Da asa da ave ferida
De vale em vale impelida
A vida o vento levou!

....

(João de Deus)


segunda-feira, 9 de março de 2015

Primavera


Óleo sobre Tela 30x40cm
"Primavera"
Rui Pascoal - 2015


"Vem aí a Primavera
disse-me hoje a tua boca
depois do mais que me dera
o que vem é coisa pouca..."

(David Mourão Ferreira)


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Metamorfose


Óleo sobre Tela 30x40cm
"Metamorfose"
Rui Pascoal - 2015


No teu rosto
competem mil madrugadas

Nos teus lábios
a raíz do sangue
procura suas pétalas

A tua beleza
é essa luta de sombras
é o sobressalto da luz
num tremor de água
é a boca da paixão
mordendo o meu sossego


(Mia Couto)



segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Mulheres de Preto


Óleo Sobre Tela 80x60 cm
"As Velhas"
Rui Pascoal - 2014


Há muito que são velhas, vestidas
de preto até à alma.
Contra o muro
defendem-se do sol de pedra;
ao lume
furtam-se ao frio do mundo.
Ainda têm nome? Ninguém
pergunta, ninguém responde.
A língua, pedra também.


Eugénio de Andrade


segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Espera


Espero sempre por ti o dia inteiro,
Quando na praia sobe, de cinza e oiro,
O nevoeiro
E há em todas as coisas o agoiro
De uma fantástica vinda.

Sophia de Mello Breyner Andresen

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Postal de Natal

Óleo sobre tela 60x80cm
Triste sin(a)o
Rui Pascoal - 2014

"...Quem poderá calar a voz do sino triste
que diz por dentro do que não se diz
a fúria em riste
do meu país?..."

(Manuel Alegre)



Votos de um Feliz Natal para todos vós.


sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Brado!



Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos


(Eugénio de Andrade )



Bom fim de semana! 

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Pesar...

António Aleixo - Praça da República - Loulé
(Junto ao Café Calcinha)
Autor: Lagoa Henriques



Não me dêem mais desgostos
porque sei raciocinar…
só os burros estão dispostos
a sofrer sem protestar!

Esta mascarada enorme
com que o mundo nos aldraba,
dura enquanto o povo dorme,
quando ele acordar, acaba.


António Aleixo


sábado, 22 de novembro de 2014

Apesar das ruínas e da morte



Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
A força dos meus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias.

(Sophia de Mello Breyner Andresen)